INTRODUÇÃO: MEMÓRIAS DE INFÂNCIA
Nas noites longas de Inverno, na cozinha, à lareira e à luz do candeiro de petróleo, a minha Avó Maria Isabel, que se sentava sempre "no seu lugar", do lado do moirão da esquerda da lareira, numa cadeirinha de fundo de palha e com braços, queria-nos a todos, sentados em bancos, à sua volta. E, assim, nos ia ensinando as várias orações, que "meninos de boa criação tinham que aprender". Eram tantas e tão variadas, que é impossível recordá-las todas. Só conseguimos reconstituir umas poucas, que procuraremos transcrever o melhor que pudermos e soubermos.
Havia, ainda, umas jaculatórias abreviadas e as ladainhas, ditas em latim (bastante adulterado) a que nós respondíamos, automaticamente, monocordicamente, sonolentamente: "ora pró nobis". Para controlo da reza, minha Avó parava de repente e nós, às vezes, sem dar por isso, continuávamos, para seu espanto e escândalo, metodicamente:
- "ora pró nóbis", "ora pró nobis", "ora pró nobis"... E começava-se então a rezar pelas almas dos entes queridos já falecidos. E, invariavelmente, minha Avó abria, sempre, em primeiro lugar:
- Por alma do meu António e amor de Deus, Padre Nosso...
- Por alma de "minhas Mãis" e de meu Pai e amor de Deus, Padre Nosso...
- Por alma da nossa Benedita (1) e da nossa Mariquinhas e amor de Deus, Padre Nosso...
- Por alma do vosso Papá, dos vossos Avós e amor de Deus, Padre Nosso...
- Por alma dos meus Avós, todos, e de seus Pais (2) e amor de Deus, Padre Nosso... ;
E rezávamos por alma de toda a família e dos seus antepassados, pessoas que, pelas nossas contas, teriam já morrido, há mais de um século. E a Sra. Maria Emília do Sr. Manel Afonso, afilhada dilecta, e que vinha, diariamente, "cumprimentar de saúde a Srª Madrinha", protestava em surdina:
- "Ai, mês filhos! Com tantas rezas, já estão vinte léguas pra lá do céu".
E com que alívio, víamos chegar a jaculatória final:
- "Senhor, nós neste mundo rezamos pouco, mas aceitai-o por muito
no outro"... "Sobre todas as coisas, bendito, louvado e adorado seja o
Santíssimo Sacramento do Altar..."
Até que, finalmente, dizíamos:
- "Dê-me a sua benção, minha Avó".
Sim, porque a nossa Avó - a "Vó-Vó" - era a figura central da nossa casa!
O nosso Avô, António Pinto, faleceu relativamente novo (48 anos), mas, prematuramente, envelhecido, pelos sofrimentos, desilusões, desenganos e traições, que lhe trouxe "a política". Para se aguentar, com o nível desejado, e sustentar clientelas, teve que vender muitas propriedades na Miuzela, no Peroficós e em Porto de Ovelha e que minha Avó, Maria Isabel, apesar do desgosto que lhe ia na alma, "sempre assinou", "por respeito", "ao seu António".
Era um homem liberal, com ideias desempoeiradas e um militante muito activo, na região, do Partido Progressista.
O período de transição dos séc. XIX para o séc. XX, em Portugal, foi um tempo conturbado pela teia emaranhada da política, no fim da Monarquia, em que se concitavam ódios, traições, e delacções, que levaram ao assassínio de D. Carlos e D. Luís Filipe e em que Regeneradores e Progressistas se degladiavam e se acusavam, mutuamente, de traidores. E esta atmosfera de paixões, que os políticos geraram, espalhou-se por Portugal inteiro e não poupou a nossa região, nem o nosso Avô Pinto.
Com um espírito esclarecido, pôs as suas três filhas "nos estudos" na Guarda, para seguirem, depois, o curso da Escola Normal, recentemente criada.
Durante a doença, prolongada de meu Avô, de que viria a falecer (1909), minha Mãe, por escolha unânime da família toda, veio para a Miuzela, a fim de tomar o governo da casa.
Depois do casamento, minha Mãe e o meu Pai foram viver com a minha Avó, Maria Isabel. A orientação, as responsabilidades e o governo da casa, desde o falecimento de meu Avô António Pinto (1909) foram sempre da "nossa Mamã", para grande alívio e tranquilidade de minha Avó. E, assim foi, desde muito jovem, até ao seu falecimento (Março de 1962): uma vida de preocupações e de períodos difíceis, a alternar com melhores tempos, sempre com a mesma austeridade e dignidade e preocupação de "não deixar decair a família".
Meu Pai, Prof. Artur Correia Peixoto, era natural de Algodres (Figueira de Castelo Rodrigo) e tinha conhecido a minha Mãe, ainda jovem, "nos estudos", na Guarda. Passados alguns anos, mantendo sempre um contacto discreto, conseguiu ser colocado na Miuzela. e, finalmente, casou com a minha Mãe (1912). Do casamento nasceram meu Irmão Acácio (1913), minha Irmã Judite (1915), eu (1922) e o António (1924) - o nosso Tó.
Meu Pai veio a falecer, na Miuzela, em Março de 1929, depois de ter passado um interregno, de sete anos e meio, em Angola.
A "nossa Mamã", viúva, com quatro filhos, ainda crianças, soube criá-los, com muitos sacrifícios e dignidade, de forma civilizada e austera, mas sempre amorável, apesar da situação difícil em que ficou, e devido aos tempos precários, que então corriam, e de dificuldade para toda a gente.
É, por isto, e muito mais, pelas suas lições, pelo seu exemplo, pelo
seu acendrado amor à verdade, que eu e os meus Irmãos sentimos, além
de gratidão, o orgulho, que não escondemos, de sermos filhos da "nossa
Mamã".
Minha Avó Maria Isabel teve um nascimento muito difícil. Os seus pais, que eram primos direitos, casaram com a idade de 40 anos. A Mãe, a nossa bisavó Maria Joana, havia de vir a falecer "passados tempos", devido às complicações do parto. Quem lhe assistiu (e salvou a minha Avó) foi o Padre Joaquim Pinto, capelão do Peroficós, seu parente e Padrinho, que antes de "tomar ordens", tinha estudado nas Faculdades de Medicina e de Teologia, na Universidade de Coimbra.
O meu bisavô, José Monteiro, voltou a casar com uma cunhada e prima (Bárbara Monteiro), que criou a minha avó (enteada, sobrinha e afilhada) e de quem veio a ser a herdeira universal.
Minha Avó, que era "morgada", devido ao parto difícil e conturbado,
ficou um pouco aleijada do lado direito (no braço e na perna), e foi sempre
rodeada de "muitos mimos e cuidados". Era muito estimada no Povo e Madrinha de "Meio Mundo"
Depois, vinha a visita nocturna, ansiosamente aguardada, infalível e diária, "do nosso Augusto" - o nosso Tio Augusto Monteiro (primo direito de minha Avó), que se sentava, numa cadeira, com almofada, do outro lado da lareira, em frente da nossa Avó. Após umas saudações muito efusivas, mas breves, como mandava o ritual, entre primos, "que se queriam bem", dormitavam um para cada lado, e com poucas falas, de braços cruzados, assim se mantinham, sozinhos, horas e horas, a cabecearem e a dormitarem à lareira. E a Sra. Maria Emília, para quem a "Sra. Madrinha era linda com'ó Sol", ia ajeitando o lume, que fazia fumo, "sem incomodar a Senhora Madrinha, que estava a "repoisar"". Depois de uns tantos silêncios e de algumas falas, vinham as despedidas, sempre cheias de afectividade, sentida.
-"São horas, Maria Isabel! Já tocaram "às almas"; Então, boas noites nos dê Deus!".
Minha Avó correspondia e agradecia, com as recomendações de estilo:
-"Alumiai ao Tio Augusto, que a noite está escura", ;
-"Oh Augusto, tem cuidado, não tropeces!".
Um de nós, como mandavam as boas maneiras, vinha acompanhar e alumiar o Tio Augusto até ao portão, que só se fechava, depois dele nos dizer as últimas "boas noites", ao virar da esquina.
Foi um ritual que se manteve, sem falhas, durante anos e anos, até minha Avó falecer. Nós aproveitávamos muitas dessas visitas para saciar a nossa curiosidade e para ouvir contar histórias e relatar factos referentes às nossas gentes. Minha Avó, mais expedita, e sempre disposta a aturar-nos, gostava muito de falar de "seu Pai", de "sua Mãe", dos "seus Avós, Padrinhos e Madrinhas" e dos "velhacos dos franceses". E, então, insistia:
-"diz lá tu, Augusto, porque tu é que hás-de saber, como a nossa Monteirinha" (D. Maria Monteiro Paios Pinto, irmã do Tio Augusto).
E o nosso bondoso Tio Augusto, de forma lenta, compassada e arrastada, recorrendo à sua memória e ao que dizia o António Pinto do Monte (seu concunhado), fazia-nos relatos, que nos encantavam, principalmente, o que diziam "os nossos antigos", sobre as invasões francesas e a guerra da Patuleia. Estes eram entrecortados, de quando em vez, pela minha Avó, que em reforço "das verdades do nosso Augusto", invocava os testemunhos do seu Padrinho Joaquim Monteiro, dos seus Avós, e "da nossa Monteirinha" (Mãe de D. Maria Bárbara e irmã do "nosso Augusto"), "gente ilustrada e de muitos saberes".
Em casos de dúvida, podia sempre recorrer-se, dizia a minha Avó, à "vossa Mamã", ou à "nossa Maria Bárbara" (D. Maria Bárbara Monteiro Pinto Freire Beirão), "porque elas é que sabem e têm muita coisa guardada nos nossos livros". A D. Maria Bárbara, e seu irmão Mário Pinto, cuja Mãe falecera, quando eram meninos, tinham para a minha Avó um lugar no coração igual ao que tinha para nós. Para ela eram sempre a "nossa Maria Bárbara" e o "nosso Mário".
Foi nesta atmosfera, em que se cultivavam e preservavam os valores humanos e se respeitavam e estimavam os testemunhos e os exemplos dos nossos maiores, que desenvolvemos o orgulho, que não escondemos, de sermos da Miuzela, e um sentimento profundo pela nossa terra, sobretudo, pela sua gente, digna, amiga e generosa!
E foi, assim, nesta vivência familiar, em que se presavam os altos valores morais, que nós recebemos um conhecimento alicerçado numa forte tradição oral e escrita, que constitui, em parte, a matéria destas notas despretensiosas, que gostaríamos de transmitir aos nossos conterrâneos e amigos.
Foi, assim, que com a "nossa mamã", nos habituámos a aprender "que não tínhamos a renda do bispo a cair", e que "tinha que haver ordem e disciplina nesta casa", e que "a preguiça é a Mãe de todos os vícios".
Com o ciclone, que assolou Portugal, em Fevereiro de 1941, caiu o cabanal, ruíram paredes, e voou parte do telhado da "nossa casa". Mudámos, então, para a "casa de cima", ao mercado, com grande desgosto da minha Avó, que "nunca mais lá quis voltar, à sua casa". E desabafava, aludindo aos tempos difíceis, que atravessávamos:
-"Pela aragem, se vê quem vai de viagem" ; Ou, ainda:
-"Se meu Pai e minha Mãe viessem a este mundo...".
Mas, com espanto, surpresa e contentamento da minha Avó, a "nossa Mamã" começou a reconstrução dos muros e das paredes, que davam para a rua, a reparação dos telhados e as transformações do pátio, logo em Maio, desse ano, introduzindo grandes melhoramentos. Era, então, que minha Avó, contente, nos dizia, com admiração:
-"Ai, meus filhos, nunca houve homens na nossa família! Olhai, meu Pai era muito bom; o meu Padrinho, não precisava; o vosso Avô Pinto não se importava; o vosso Papá não foi criado nisto...
-... Graças a Deus, que houve um homem na nossa família: foi a vossa Mamã!".
E, depois, com um ar meditativo e de respeito, juntava:
-"É verdade, meus filhos, a "vossa Mamã" sempre foi a cumieira da
nossa casa!".
Assim, se compreenderá a razão de ser da dedicatória e destas notas, com que queremos prestar homenagem à memória de entes, que nos foram tão queridos, que tantas saudades nos deixaram e de quem recebemos grandes lições, que nos têm servido para a vida inteira.
1 - Minha Avó teve três filhas: Maria Carmen, Albertina e Benedita, que era o seu "Ai Jesus!" e o "ver dos seus olhos" (morreu em 1916, na flor da idade, vítima da epidemia do tifo).
2 - Eram nossos Tetravôs, cujos nomes minha Avó sabia de cor.