EM MEMÓRIA DO PROFESSOR DOUTOR JOSÉ PINTO PEIXOTO


Augusto José Monteiro Valente (1)

“Feliz daquele que procura as causas das coisas, porque um dia ultrapassará o medo e será entronizado pelo destino"(Virgílio).

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A 4 de Agosto de 1996, o Professor Doutor José Pinto Peixoto apresentou na sua aldeia natal o livro que lhe dedicara: «Miuzela - A Terra e as Gentes».

Tive o privilégio de fazer a apresentação da obra.

Mal imaginava eu, e mal imaginavam quantos estavam presentes na sessão, o sentido premonitório daquele acto.

A alegria, intensamente vivida, do lançamento da obra daria lugar, escassos quatro meses depois - a 6 de Dezembro de 1996 - à mágoa, profundamente sentida, do inesperado falecimento do autor.

Reflectindo hoje, passados seis anos, sobre aquele acto, sou levado a pensar que o autor, então no jubileu da sua longa e brilhante carreira académica e científica, parecia antever o epílogo da sua própria vida.

Relida a esta distância e neste diferente contexto, aquela obra parece ela mesma reflectir igualmente um mesmo sentido premonitório.

De facto, começando pela evocação das suas raízes familiares, em especial da sua adorada mãe, e a que chamou "Memórias de Infância", o Professor Pinto Peixoto conclui a obra com um apelo às novas gerações, «aos filhos vindouros da nossa Terra», para que saibam dar continuidade ao esforço dos antepassados, «firmes nos nossos valores ancestrais», apelo que tem o significado de uma transmissão de testemunho. E, ao fazê-lo na sua aldeia natal, num humilde regresso ás suas origens, mais pareceu querer reforçar aquele sentimento.

A obra «Miuzela – A Terra e as Gentes»,
constitui, porventura, o melhor testemunho escrito do amor do autor à sua aldeia natal e da sua fascinante e complexa personalidade, simultaneamente rica e modesta, grande e simples, digna e humilde, e das qualidades cívicas que a enformaram e que o Professor Carvalho Rodrigues muito bem sintetizou nos seguintes versos que lhe dedicou:
"Serviu e não contabilizou o custo
Lutou e não contou as feridas
Trabalhou e não pediu descanso
Deu-se e pediu nada em troca."

Fui educado no culto do exemplo do Professor Pinto Peixoto. Enquanto jovem, meu pai falava-me frequentemente da sua personalidade, talvez para me estimular ao estudo. Mas, o conhecimento pessoal deste meu primo materno era quase nulo, pois, na época, as minhas deslocações à Miuzela eram escassas e muito fugazes, na generalidade dos casos para participar em funerais de familiares. Só o comecei a conhecer melhor após os meus trinta anos, quando, por motivo do casamento, as minhas estadias na aldeia aumentaram de frequência e de duração. Mas, mesmo assim, o nosso relacionamento pessoal era muito limitado.
As deslocações de Pinto Peixoto à Miuzela eram, também, reduzidas e curtas e raras vezes coincidentes. Nos períodos de férias de Verão, em que, porventura, melhores condições haveria para um encontro, deslocava-se invariavelmente para os Estados Unidos, passando, apenas, uns curtos dias na aldeia, de visita à família. Apreciava a sua simplicidade e naturalidade, afável para com todas as pessoas, independentemente da condição social, que cumprimentava com especial carinho e simpatia e a quem dirigia sempre palavras amigas. Mas confesso que conhecia muito mal a dimensão da sua personalidade de pedagogo e cientista. Minha mulher, também sua prima, conhecia-o muito melhor que eu. A sua casa era visita obrigatória de Pinto Peixoto quando se encontrava, ainda que de passagem, na Miuzela. Tinha um especial amor e ternura pela minha sogra, por si considerada a sua prima dilecta ou, mesmo, uma irmã mais velha.

A notícia da sua morte inesperada, constituiu, para ambos, um profundo choque. Como referi, havíamos estado juntos, durante algum tempo, mais do que o habitual, aquando do lançamento da monografia referida. Na véspera do falecimento telefonara tranquilamente para nossa casa, dando conta, aparentemente com grande despreocupação, da intervenção cirúrgica a que iria ser submetido, uma operação simples e banal como se lhe referiu, talvez para nos sossegar ou porque não conheceria a gravidade da situação. Por isso, mais dolorosa foi a notícia.

Devo confessar que só depois desta trágica ocorrência, pela leitura de vários artigos publicados a esse propósito, que ainda hoje guardo, comecei a mergulhar na sua vida de homem de ciência e sabedoria e a compreender as referências que meu pai me fizera na juventude do Professor Pinto Peixoto. Passei a ler as suas biografias e a interessar-me mais pela sua pessoa e obra científica. E foi então que, verdadeiramente, a sua personalidade me conquistou.

Tocaram-me profundamente as palavras proferidas por um seu ilustre colega e amigo no momento que precedeu a descida do seu corpo à terra, no cemitério da nossa aldeia. Igualmente emocionante foi, para mim, o testemunho do Dr Víctor Morais Ladeiro, seu conterrâneo e muito mais conhecedor da pessoa do Professor Pinto Peixoto, prestado na romagem de saudade à sua campa, no passado dia 11 de Agosto de 2002, ao evocar o seu exemplo como cidadão e Miuzelense e o seu prestígio como Homem de ciência e de sabedoria. Apoiando-se, então, numa breve síntese das principais ideias da história da filosofia, e após salientar que “o mundo do pensamento, da filosofia e da ciência leva à descoberta dos grandes valores”, o orador concluiu “que no testemunho que nos é dado no seu livro «Miuzela, a Terra e as Gentes», o Professor Pinto Peixoto apresenta os valores das figuras familiares que mais o marcaram e influenciaram, deixando antever que também ele praticara aqueles valores ao longo da sua vida: a coragem e a honestidade – a «virtus» dos romanos; a « fides» - a fidelidade para consigo mesmo, para com os princípios pelos quais se rege, e a fidelidade para com os outros; a «pietas», a veneração, o respeito e o carinho pelos seus maiores”.

Só mesmo uma personalidade, com a grandeza de Pinto Peixoto, escolheria culminar a sua vida com o lançamento, na sua recôndita aldeia natal, dum simples livro de memórias, quando é certo que poderia ter continuado a dedicar os últimos dias a colher as honras de um reconhecimento, a que, aliás, tinha legítimo direito, reconhecimento que, diga-se de passagem, chegou escasso e primeiro do estrangeiro que do seu próprio país.

Foi o entendimento da sua mensagem naquela obra, bem como a convicção de que qualquer comunidade precisa de manter vivas as suas melhores referências cívicas, que motivaram, entre os familiares e amigos mais próximos, a criação da Associação Casa de Cultura Professor Doutor José Pinto Peixoto, com o objectivo primário de não deixar apagar a memória deste ilustre filho da Miuzela.

Julgou-se ser essa a melhor forma de corresponder à lição de vida por si deixada, porventura ainda não compreendida por alguns. À ideia muito mais simples de perpetuar a sua memória num busto ou numa lápide, com um sentido sobretudo e apenas memorial e saudosista, contrapôs-se a constituição de uma associação local, porque, desde logo, se ambicionou algo de vivo, dinâmico e com uma função pedagógica, na esteira do que fora o modelo de vida do Professor Pinto Peixoto.

Assente a ideia nasceu a Associação, formalizada por escritura pública lavrada em 02 de Novembro de 1999, no Cartório Notarial de Almeida, tendo por objectivos primeiros, perpetuar a lembrança do seu patrono, como exemplo cívico e de cultura para as gerações futuras, recolher e preservar a parte do espólio pessoal que lhe for doada pelos herdeiros, familiares, amigos e instituições e criar um espaço cultural, especialmente orientado para os jovens.

Trata-se, em primeiro lugar, de honrar e perpetuar a memória daquele ilustre Miuzelense, um dos mais brilhantes cientistas portugueses e de reputação mundial, que se impôs pela sua personalidade ímpar e inconfundível, por uma entrega total à investigação e ao ensino e pelo impulso determinante que deu ao aprofundamento dos conhecimentos científicos e à renovação do ensino, especialmente nas áreas da geofísica, da meteorologia, da climatologia, da hidrologia, da oceanografia e da termodinâmica moderna, e, em particular, através dos projectos sobre a “Circulação Geral da Atmosfera” e as “Circulações Planetárias”, desenvolvidos no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Da sua actividade colheram frutos todas as universidades portuguesas e algumas das mais prestigiadas universidades estrangeiras. Simultaneamente, no dizer de Abraham Oort e Barry Saltzman, Pinto Peixoto afirmou-se como “o maior especialista mundial do ciclo hidrológico global e sua contribuição termodinâmica para o balanço da energia global e da entropia”. Estas investigações culminaram com a publicação, em 1992, em colaboração com o físico norte-americano Abraham H. Oort, da obra «Physics of Climate», hoje, ainda, uma referência mundial na área da física do clima.

Apelidado por este físico norte-americano de «navegador da meteorologia» e reconhecido pelo Professor Obasi como «um dos mais eminentes cientistas no seu domínio de especialização», esclarece o Professor Carvalho Rodrigues, que foi Pinto Peixoto «que nos revelou as bases científicas para hoje percebermos a variabilidade do clima, que levantou os problemas, formulou as equações e fez nos anos sessenta/setenta a descoberta, para o mundo inteiro, de como é que as regiões áridas se formavam», referência à qual Robert White, seu antigo colega e professor na Academia Nacional de Engenharia dos Estados Unidos, acrescentou que «sem a investigação científica de José Peixoto não seria possível estudar as variações do clima e perceber porquê e como é que caminhamos para um aquecimento global do clima». Também como professor, «Pinto Peixoto foi um mestre notável. Foi com ele que eu e muitos outros aprendemos a raciocinar em física. Tinha uma forma especial de dar as aulas que transformava aquela física árdua em coisas reais. Conseguia exprimir a natureza que estava por detrás das equações indo buscar exemplos da vida corrente para traduzir os conceitos», assim se lhe referiu o Professor-Doutor Luís Mendes Vítor, relembrando os tempos em que foi seu aluno. Para Tomás Espírito Santo, ex-Director do Instituto de Meteorologia e Geofísica, “Pinto Peixoto tinha um novo conceito da Universidade e da Ciência, mas, além disso, era um humanista. Ele dizia que um cientista tinha de ser um humanista. Pensava que um cientista não é aquele que é especialista num determinado campo, porque a Universidade e a Ciência têm de estar em permanente contacto com a sociedade. Um dos seus últimos trabalhos chama-se, justamente, A diversidade e a Unidade do Ensino Superior” (2).


A sua dedicação à ciência só encontrou paralelo no amor que, verdadeiramente, dedicou à família e à sua aldeia natal. «Miuzela – A Terra e as Gentes», é disso o melhor testemunho escrito. Infelizmente, não dispôs de tempo bastante para lhe dar continuidade, numa altura em que a sua maior disponibilidade profissional, seguramente, o iria permitir. Mas o seu nome e a sua obra perdurarão e, indissociavelmente ligadas a eles, estarão sempre a Terra onde nasceu e as suas Gentes.

Por isso mesmo, honrando o Professor e o Cientista e porfiando por preservar e legar aos vindouros a sua obra, a
Associação Casa de Cultura Professor Doutor José Pinto Peixoto pretende, ao mesmo tempo e primariamente, lembrar “in loco”, o exemplo do Cidadão profundamente humanista e erudito que foi o seu patrono, cultivando e aprofundando, sobretudo entre as gerações jovens, o seu exemplo cívico, e contribuindo, dessa forma, para a sua formação como cidadãos livres, responsáveis e empenhados num mundo cada vez mais exigente. E fazê-lo, igualmente e na medida do possível, também a nível regional e nacional.

«No alvor do terceiro Milénio – concluindo com o Professor Pinto Peixoto – a Miuzela, com tal jeito de lidar, e na sua ânsia de caminhar para o futuro, abre perspectivas novas, e será, sempre, uma terra em que apraz e merece a pena viver. Temos que acreditar, que todos unidos, conscientes do que somos e do que valemos, firmes nos nossos valores ancestrais, havemos de saber transmitir o testemunho, que herdámos dos nossos Pais e dos nossos Avós, aos filhos vindouros da nossa Terra.»

(1)
Major-General. Presidente da Comissão Instaladora da Associação Casa de Cultura Professor Doutor José Pinto Peixoto.
(2)
Citações extraídas da revista Meteoro, n º 6, 3 ª série, Mar87 – Especial, edição do Centro Cultural e Desportivo/Casa do Pessoal do Instituto Nacional de Meteorologia e Geofísica.