MEMÓRIA E PEDAGOGIA

Augusto José Monteiro Valente (1)


A 6 de Dezembro de 1996, Portugal perdeu um dos seus mais reputados cientistas do século XX, de renome nacional e internacional, precursor das modernas investigações nos domínios da Geofísica, da Climatologia, da Hidrologia e da Termodinânima, impulsionador da criação das novas Universidades de Lisboa, da Beira Interior, do Algarve e de Trás-os-Montes e Alto Douro, e dos Institutos de Geofísica e de Meteorologia.

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À data da sua morte, o Professor Doutor José Pinto Peixoto deixou publicados mais de cinquenta artigos em revistas internacionais referenciadas, inúmeros textos e livros de divulgação em português, e uma das principais obras científicas sobre a circulação global da atmosfera, "Physics of Climate", publicada em 1992 pelo American Institute of Fhysics, em colaboração com outro grande nome da Física da Atmosfera, Victor Starr, investigador do Massachussets Institute of Technology, onde Pinto Peixoto também estudou e trabalhou. Este livro, em que reuniu os principais estudos que realizou ao longo da sua vida, tornou-se rapidamente numa obra de referência em Meteorologia e Climatologia, mantendo-se ainda hoje como uma das sínteses mais utilizadas naqueles estudos. O Professor José Pinto Peixoto foi um dos cinco cientistas portugueses do século XX cujo retrato figurou no Pavilhão de Portugal, ao lado do de Egas Moniz, na Exposição Internacional de Sevilha, e o seu falecimento ocorreu um dia após haver terminado uma monografia para a Exposição sobre os Oceanos de 1998, realizada em Lisboa.


Para preservar a sua memória, foi criada na Miuzela, concelho de Almeida, sua aldeia natal, a «Casa de Cultura Professor Doutor José Pinto Peixoto» e, para evocar o seu patrono, esta Associação tem promovido um conjunto de acções de pedagogia cultural e cívica e divulgação científica, dirigidas aos habitantes da região onde se insere, e especialmente aos jovens em geral, aqueles que no futuro irão continuar o seu trabalho.


Segundo D. Francisco Manuel de Melo a saudade é "um mal, de que se gosta, e um bem, que se padece" e "um suave fumo do fogo do amor". De modo muito semelhante igualmente a define outro ilustre Português, o Professor Eduardo Lourenço: "objecto de desejo fora do nosso alcance, mas ainda real ou imaginariamente recuperável" e "expressão do excesso de amor em relação a tudo o que merece ser amado".


Mas a memória é de outra natureza: é o presente do passado, inspirador de futuro; a lembrança viva, impulsionadora do progresso; o exemplo consciente, mobilizador da esperança; o tempo regressado, cimento do amanhã. Não como simples crónica ou história propriamente dita mas, ao invés, como recriação e reactualização permanente e dinâmica do passado, factor pró-activo de reconstrução constante da própria identidade individual e colectiva e o mais sólido alicerce do futuro.


Aparentemente contraditórios, estes sentimentos coexistem em todos nós, de forma mais viva ou mais difusa. A saudade é, sobretudo, própria do tempo próximo e a memória do tempo distante e, enquanto a saudade tende a desvanecer-se, a memória tende a reforçar-se, como a representação simbólica de tudo o que merece ser lembrado. E os grandes Homens não morrem porque a marca que deixam os projecta para sempre na memória dos povos e das comunidades.


Assim sucede em relação ao Professor José Pinto Peixoto. O alto legado cultural e científico que deixou, o modelo de cientista inovador, de investigador empenhado e docente estimado, bem como o exemplo de humanista probo, de homem íntegro, de pessoa solidária, simples e amiga, são a sua mais preciosa lição de uma vida intensamente dedicada aos outros, a Portugal e ao Mundo, que faz da sua memória uma referência para todos os que acreditam nas qualidades dos Portugueses e no futuro do País. Antes de mais, o Professor José Pinto Peixoto mostrou que nascer no interior não é uma fatalidade e que estudar e trabalhar em Portugal não é uma adversidade. Provou não haver condicionalismos sociais nem fronteiras geográficas, ou de outra natureza, que resistam à força da vontade e ao valor do mérito.


Perpetuar a sua memória, numa perspectiva pedagógica, como símbolo estimulante do espírito, do pensamento e da acção, que promova uma atitude positiva e dinâmica perante os desafios da vida, o gosto de ir mais adiante, de forma acertada com o tempo, e um propósito de inovação e transformação da realidade de cada momento, é o objectivo fundamental da Associação criada na sua aldeia natal e que o tem por patrono. Objectivo que, consequentemente, é dirigido especialmente às gerações jovens, mas que não esquece igualmente as mais velhas, porque só num diálogo cultural, aberto e não dogmático, entre ambas é possível uma cultura autenticamente democrática e um desenvolvimento sem rupturas. Esta foi outra lição que nos deixou o Professor José Pinto Peixoto.


Infelizmente, os Portugueses vivem, por regra, mais voltados para o passado do que concentrados no futuro, seja em termos pessoais, seja em termos nacionais, ainda que como expressão de apego a algo que já não existe ou produto de traumas que marcaram as suas vidas. Mas é importante perceber que a nostalgia é a negação do presente e a saudade a recusa do progresso, porque ambas se fixam num pretérito determinado que convocam e, consequentemente, são sobretudo factores de desesperança e de descrença no futuro de Portugal, bloqueando o que há de dinâmico e utópico na vida. E, ainda por cima, esse tempo é quase sempre vivido pelos Portugueses em termos de imaginação, ficção ou ilusão, fruto, sobretudo, de excessivo amor, irrealismo, mistificação ou manipulação ideológica. Ora, em boa verdade, só honram os seus antepassados aqueles que em cada dia cultivam e aprofundam a sua memória e fazem dela o futuro do presente, porque "antes da plena consciência de um destino particular (...), um povo é já futuro e vive do futuro que imagina para existir", como nos ensina Eduardo Lourenço.


Só assim a memória não será apenas lembrança de um passado ausente, mas antes ideal mobilizador de um futuro nunca extinto de progresso e desenvolvimento, em Paz e em Liberdade.

(1) Presidente da Comissão Instaladora da Associação Casa de Cultura Professor Doutor José Pinto Peixoto.